Get me outta here!

quinta-feira, 10 de março de 2016

Fui enganada pelas luzes de uma cidadezinha ou duas no horizonte. Esperava a Lua aparecer, mas demorava tanto. Enquanto não aparecia o ambiente era o mesmo naquela praia: vento, maresia, escuridão... Salvo a luz dos postes na rua igualmente vazia de seres humanos ou, se houve algum, estavam escondidos em sua caixinha móvel. Logo a Lua se revelava no céu trazendo consigo a cor de terra-alaranjada do deserto. Puxava no horizonte uma tempestade de areia representada pelas nuvens em sua maestria teatral, enquanto a Lua se erguia majestosa, colorindo o azul escuro com as cores do amanhecer do Oriente. A Maré implorava para ficar, mas corria forte para o sul mesmo que não a agradasse. Tentava em vão agarrar-se à terra. "Ela era a clemência aos meus pés"; quente, forte, sedutora (e como quase todas as coisas sedutoras...), perigosa. Ela me doava seu calor, implorando e mostrando ao meu corpo que era capaz de me sustentar. Não desistia, ela nunca o faz. E a Lua... Ela hipnotizava. Essa era a briga entre elas: muitos acreditavam que o caminho para a Lua era passando pela Maré. Mas não é verdade. E as nuvens escuras, salgadas pela Maré, moviam-se como peixes nadando no céu, tentando esconder o brilho da Deusa, mas respeitando seu espaço. Era pura dança aquele ritual. Um arco-íris formava uma aura na Lua, porém seu brilho tímido se contentava com a atenção de quem se preocupava em vê-lo. Não precisava e nem tinha inveja da Deusa. Assim como eu me contentava em espera-la todas as noites para ver e continuar a tentar descobrir os enigmas da face que ela nos mostra e que talvez seja a única que possamos enxergar. Quanto a Maré... Essa deveria ser grata a Lua por tantos sacrifícios. Não que Ela, a Lua, não quisesse essas oferendas, mas Ela não os podia ter, pois os homens eram estúpidos demais para perceberem que não era possível alcançar algo tão grandioso como ela construindo uma escada em pirâmide. Ela aceitou que não eram dela e mudou de povo: os Lobos, sim, sabiam como alcançá-la. A Maré se cansou de meios sacrifícios e começou a pegar, por si só, aqueles que usufruiriam de suas crias, passeavam pelo seu corpo e ainda lhe sujavam sem cerimônias, não lhe pediam licença para tocar-lhe a barra. A Maré sempre fora acusada de violenta, perigosa... e por isso, a Lua, ficou sendo "delicada". Mas o problema não está na Maré. Ela sabe disso, mas poucas pessoas sabem... E é isso que a chateia... Ela só é profunda e instigante, mas é exposta (não extrovertida) e todos tem medo do que ela pode guardar. Ela, então, cansou-se de insistir. Agora apenas fica esperando alguém curioso o suficiente para amá-la e descobrir os seus lados: Pacífico, Morto, Mediterrâneo... E todos esses nomes que não a são, mas que gostariam... Sub-deuses dela mesma.